E se o seu psiquiatra lhe prescrevesse um passeio na floresta em vez de antidepressivos?

passeio na floresta
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Prática comum no Japão, “Shinrin-yoku” são pequenas visitas a florestas que permitem respirar substâncias voláteis capazes de melhorar a função imunitária no seu geral. Uma caminhada ou um passeio na floresta equivale à prática da aromaterapia natural, e há provas em como estas diminuem significativamente a ansiedade, a depressão e a raiva.

Dada a presença de aromas, particularmente aqueles emanados pelas coníferas (phytoncides), comummente designadas por “óleos essenciais de madeira”, descobriu-se que o risco de doenças psicossociais associadas ao stress é mais baixo em indivíduos que consagram o habitual banho de floresta como parte do seu estilo de vida. (1,2)

As resinas produzidas por plantas nas florestas são essencialmente constituídas por moléculas lipídicas, os terpenos, que têm um papel fulcral nos remédios herbáceos tradicionais (tendo-o também em vários outros fins que vão desde os temperos culinários às fragrâncias dos produtos de limpeza).

A natureza exibe uma incrível variedade de terpenos, num número bem acima dos 10,000, que variam em estrutura, fragrância e função, estando revestidos de uma imensa importância para nós.

Alguns exemplos incluem a humolona, um constituinte do lúpulo, com o qual poderá estar familiarizado caso aprecie o sabor amargo da sua cerveja; O mentol é, provavelmente, parte da sua pasta dentífrica, a erva-limão integra o seu produto de limpeza, enquanto o geraniol está presente no seu produto contra os mosquitos e a lavanda no seu chá herbáceo de fim de tarde.

(3) Alguns terpenos exibem efeitos antidepressivos, calmantes e ansiolíticos. De forma evidente, exceto em casos específicos de alergia, os terpenos estudados são tidos como substâncias cuja utilização é segura em quase todos os aspetos da vida humana, contudo o seu papel não é particularmente valorizado pela maioria dos psiquiatras & psicólogos. (3)

Além disso, estas substâncias exibem uma grande biodisponibilidade, ou seja, os efeitos positivos podem ocorrer mesmo sob concentrações indetetáveis no soro, e podem ser absorvidas facilmente pela via respiratória, assim como pela ingestão e absorção cutânea. (4,5)

Que terpenos têm um papel antidepressivo-ansiolítico?

LimonenoLimoneno

Vários estudos comportamentais com óleos cítricos, efetuados em roedores, mostram de forma consistente que o limoneno reduziu significativamente a ansiedade & stress social. (6; 7)

O limoneno demonstrou ser capaz de mediar os seus efeitos antidepressivos através dos recetores 5-HT 1A, que aumentam a serotonina (um neurotransmissor que regula o humor) no córtex pré-frontal; Esta região cerebral está associada à expressão da personalidade, à tomada de decisões e às interações sociais.

Além disso, o limoneno aumenta a dopamina (um neurotransmissor que contribui para o sentimento de recompensa) no hipocampo (a área cerebral que controla a aprendizagem & memória). (8, 9).

Estes efeitos foram confirmados por um estudo clínico com pacientes depressivos hospitalizados, que foram expostos à fragrância cítrica no ar ambiente, tendo registando uma subsequente normalização da Escala de Avaliação de Depressão de Hamilton, uma descontinuação bem-sucedida da medicação antidepressiva em 9/12 pacientes e uma melhoria da resposta imunitária.

(A inflamação contribui decisivamente para os estados depressivos, verificar aqui) (10)

D-LinalolD-Linalol

É um terpeno como uma atividade ansiolítica bem estabelecida. É um psicotrópico e tem um papel fundamental nos efeitos sedativos e calmantes da Lavanda, assim como da Canábis.

O linalol atua através da modulação do GABA, fazendo com que este óleo essencial seja importante no tratamento de ataques, stress & ansiedade. (O GABA é, de fato, o principal neurotransmissor inibitório & é alvo dos ansiolíticos & anticonvulsivos).

O óleo de lavanda também auxilia na sedação dos comportamentos obsessivos dos viciados (por exemplo, compras compulsivas, ingestão de alimentos e consumo de drogas), como evidenciado por um estudo clínico com pacientes obesos que se submeteram à implantação de bypass gástrico, tendo reduzido a sua necessidade de administração de morfina após a intervenção, em comparação com aqueles que não tomaram óleo de lavanda. (12)

FitolFitol

O fitol, presente na maioria das plantas verdes, aumenta o GABA ao bloquear uma das suas enzimas de decomposição, o que pode ser considerado parte dos efeitos relaxantes da Cannabis Sativa & Lactuca Sativa.

Efeitos dos “passeios de banho de floresta” nas hormonas do stress

As medições da adrenalina e noradrenalina livres na urina oferecem uma medição fidedigna da concentração destas hormonas em circulação na corrente sanguínea. O stress reduzido está associado a uma diminuição da concentração da atividade simpático-adrenal.

Da mesma forma, os sujeitos que efetuaram vários testes clínicos levados a cabo no Japão sobre os “passeios de banho de floresta” exibiram de forma consistente uma diminuição significativa da concentração de adrenalina e noradrenalina na urina; Este evento foi igualmente avaliado em sujeitos do sexo masculino e feminino. (1)

Estudos posteriores foram efetuados em 2008 a fim de compreender se o nível reduzido de stress se devia exclusivamente ao fato de os sujeitos examinados estarem de folga do trabalho, como tal outro ensaio clínico foi efetuado. Desta vez, pediu-se aos sujeitos que caminhassem por lazer (como haviam feito nos seus passeios de banho de floresta) numa cidade sem a presença de florestas ou parques-coníferas.

A visita turística pela cidade não teve qualquer efeito nos níveis das hormonas do stress, sugerindo novamente que um ambiente natural é sem dúvida vital par alcançar resultados positivos, como mostrado na imagem abaixo.

Níveis reduzidos de Adrenalina em circulação foram também associados ao aumento direto da atividade exterminadora natural humana (NK), que assume um papel prominente na atividade anticancerígena, como iremos ver num futuro artigo sobre terpenos e a prevenção contra o cancro. (13, 14)

Stress

Além disso, outro indicador relacionado com estados depressivos foi encontrado nos níveis circulatórios de cortisol, tal como discutimos com profundidade neste vídeo. Os passeios de banho de floresta mostraram ser capazes de reduzir os níveis de cortisol na saliva, estabilizando também a atividade nervosa autónoma. (15,16).

Com que frequência deve fazê-lo?

A atividade imunológica exponenciada, assim como a resposta reduzida ao stress, duraram mais de 30 dias após o passeio, sugerindo que o ideal seria um passeio de banho de floresta por mês como parte de um programa preventivo; os óleos essenciais podem ser inalados ou massajados no corpo de um paciente que sofra de stress agudo ou insónia e os efeitos tendem a ser quase imediatos, fazendo com que este método, quiçá em parceria com outras alterações ao estilo de vida (caso esteja interessado em nutracêuticos ideais para a gestão da depressão recomendamos que clique aqui), seja um excelente tratamento de primeira linha sem a presença de quaisquer efeitos secundários, ao contrário da maioria da intervenção farmacológica (ISRS, MAO, Benzodiazepinas).

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Referências:

1) Qing Li. (2010). Effect of forest bathing trips on human immune function. Environ Health Prev Med . 15 (1), 9-17.

2) Morita, E Fukuda, S Nagano, J Hamajima, N Yamamoto, H Iwai, Y, et al.. (2007). Psychological effects of forest environments on healthy adults: Shinrin-yoku (forest-air bathing, walking) as a possible method for stress reduction. Public Health. 121 (1), 152-9.

3) Simonsen, J L (1947) The Terpenes. Volume I (2nd edition), Cambridge University Press, 230-249

4)Falk-Filipsson A, Lof A, Hagberg M, Hjelm EW, Wang Z (1993). d-limonene exposure to humans by inhalation: uptake, distribution, elimination, and effects on the pulmonary function. J Toxicol Environ Health 38: 77–88.

5) Jäger W, Buchbauer G, Jirovetz L, Fritzer M (1992). Percutaneous absorption of lavender oil from a massage oil. J Soc Cosmet Chem 43 (Jan/Feb): 49–54.

6) Carvalho-Freitas MI, Costa M (2002). Anxiolytic and sedative effects of extracts and essential oil from Citrus aurantium L. Biol Pharm Bull 25: 1629–1633.

7)Pultrini Ade M, Galindo LA, Costa M (2006). Effects of the essential oil from Citrus aurantium L. in experimental anxiety models in mice. Life Sci 78: 1720–1725.

8) Komiya M, Takeuchi T, Harada E (2006). Lemon oil vapor causes an anti-stress effect via modulating the 5-HT and DA activities in mice. Behav Brain Res 172: 240–249.

9) Yang Y, Raine A (November 2009). “Prefrontal structural and functional brain imaging findings in antisocial, violent, and psychopathic individuals: a meta-analysis”. Psychiatry Research 174 (2): 81–8.

10) Komori T, Fujiwara R, Tanida M, Nomura J, Yokoyama MM (1995). Effects of citrus fragrance on immune function and depressive states. Neuroimmunomodulation 2: 174–180.

11) Noma Y, Asakawa Y (2010). Biotransformation of monoterpenoids by microorganisms, insects, and mammals. In: Baser KHC, Buchbauer G (eds). Handbook of Essential Oils: Science, Technology, and Applications. CRC Press: Boca Raton, FL, pp. 585–736

12) Russo EB (2001). Handbook of Psychotropic Herbs: A Scientific Analysis of Herbal Remedies for Psychiatric Conditions. Haworth Press: Binghamton, NY.

13) Li Q, Morimoto K, Kobayashi M, Inagaki H, Katsumata M, Hirata Y, et al. (2008) Visiting a forest, but not a city, increases human natural killer activity and expression of anti-cancer proteins. Int J Immunopathol Pharmacol. 21:117-28

14) Li Q, Morimoto K, Kobayashi M, Inagaki H, Katsumata M, Hirata Y, et al. (2008) A forest bathing trip increases human natural killer activity and expression of anti-cancer proteins in female subjects. J Biol Regul Homeost Agents. 22:45-55

15) Park BJ, Tsunetsugu Y, Kasetani T, Hirano H, Kagawa T, Sato M, et al. (2007) Physiological effects of Shinrin-yoku (taking in the atmosphere of the forest)- using salivary cortisol and cerebral activity as indicators. J Physiol Anthropol. 2007;26:123-8

16) Tsunetsugu Y, Park BJ, Ishii H, Hirano H, Kagaw T, Miyazaki Y. (2007) Physiological effects of Shinrin-yoku (taking in the atmosphere of the forest) in an old-growth broadleaf forest in Yamagata Prefecture, Japan. J Physiol Anthrpol. 26:135-42

 

Viola Brugnatelli

Viola Brugnatelli is a Neuroscientist specialised in Cannabinoid circuitry & GPCRs signalling. Her academy and research training let her gain extensive experience on medical cannabis and terpenes both from preclinical as well as clinical perspective.
In her vision, collective human knowledge behold the power for overall improvement of life, thus, it should be accessible and shareable.
Viola is Founder of the science online magazine Nature Going Smart, and works as a consultant for companies & individual patients, as a speaker at seminars and workshops and as a lecturer in a CME course on Medical Cannabis in Italy, at the University of Padua.

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